Lula recusa promulgar a Lei da Dosimetria. Moraes recusa aplicá-la à primeira ré. Em dezembro, no Senado, o ministro do STF participou da costura do texto. O choque institucional verdadeiro aconteceu em silêncio — e a vitimização que o Planalto tenta extrair do desfecho ainda não está rendendo no placar eleitoral.
Cinco atores explicam toda a peça. Dois deles atuam coordenados sem admitir; dois carregam o ônus do gesto formal; um foi o senador que, em dezembro, contou em audiência pública o que ninguém queria ouvir.





Em 30 de abril, o Congresso derrubou o veto integral que Lula havia imposto, em ato no aniversário de três anos do 8/1, ao chamado PL da Dosimetria. Placar amplo: 318 × 144 na Câmara, 49 × 24 no Senado. Antes da votação, Davi Alcolumbre declarou prejudiciais os trechos que conflitavam com a Lei Antifacção sancionada em março — escolha técnica que reduziu o atrito jurídico imediato.
Em 4 de maio às 19h18, a Casa Civil recebeu a comunicação formal. Disparou-se o relógio constitucional: 48h para o Presidente promulgar (Art. 66 §7º). Lula decidiu, segundo auxiliares, "não colocar a digital" na lei. A partir do vencimento — 6 de maio às 19h18 — a competência migra para o Presidente do Senado. Alcolumbre deve assinar a promulgação até 8 de maio.
No mesmo dia 4, em decisão monocrática, Alexandre de Moraes rejeitou o pedido da defesa de Débora Rodrigues dos Santos ("Débora do Batom", condenada a 14 anos pelo 8/1) para aplicar a nova dosimetria. Argumento literal: "não tendo ocorrido, até o momento, nem a promulgação, tampouco a publicação do diploma normativo, que, portanto, não está em vigor". PT, via Pedro Uczai e Lindbergh Farias, anunciou ADI no STF.
A não-promulgação não é evento isolado. É o ponto de cruzamento entre cinco linhas que vinham caminhando em separado desde dezembro.
Cinco eixos comparam Lula, Moraes e Flávio. Quanto maior o valor, maior a pressão sobre o ator naquele eixo.
Três vértices, três relações. Lula e Moraes coordenam-se sem se assumir. Lula e Alcolumbre operam num pacto pragmático: Lula transfere ônus, Alcolumbre recebe protagonismo. Moraes e Alcolumbre carregam o paradoxo de aplicar uma lei que ambos ajudaram a moldar.
Em dezembro de 2025, Moraes atuou nos bastidores do Senado, sugerindo trechos e participando do acordo que produziu a lei (denúncia pública de Alessandro Vieira na CCJ; coluna de Paulo Cappelli; o ministro não negou). Em maio de 2026, o mesmo Moraes recusa aplicar a lei à primeira ré, sob fundamento técnico de não-vigência. Lula, por sua vez, recusa promulgar a lei que sabe ter sido moldada com a participação do ministro com quem mantém canal aberto — terceirizando o ato a Alcolumbre.
O choque institucional verdadeiro aconteceu no non-event de dezembro: o STF escolheu cooperar com o texto em vez de derrubá-lo. O que se vê em maio é encenação para a plateia eleitoral.
Mas o teatro não está rendendo o que o roteirista esperava. A primeira medição pós-30/04 (RTBD) mantém Lula em 42% × 52%, idêntica ao quadro pré-derrubada (Quaest 9–13/abr, 43% × 52%). No mesmo dia em que a Casa Civil recebeu a comunicação formal, o Polymarket precificava Flávio em 45% × Lula 38%. Quem está pagando o custo, por enquanto, é o roteirista.
Leitura CUBE com horizonte de 30 dias. Cenários eleitorais pós-derrubada do veto, ainda sujeitos a confirmação na primeira pesquisa robusta pós-promulgação.
Esta diária descartou, após fact-check, a tese de que Tarcísio seria o ganhador silencioso da Dosimetria. As odds Polymarket Tarcísio 21→26% / Flávio 14→9% são de 10 de dezembro de 2025 (após Flávio anunciar pré-candidatura), não de pós-derrubada do veto. Em 4 de maio de 2026, Tarcísio aparece em mercado paralelo com ~1%; o quadro atual é Flávio favorito numérico. Documento publicado refletindo apenas teses sustentadas por fontes verificáveis nas janelas temporais corretas.